Há um sino no Santuário de Nossa Senhora da Peneda que tem gravada a data de 1767. Em 2026, encontra-se naquele lugar há 259 anos. Já marcou horas ao serviço de um relógio mecânico. Já acompanhou romarias, funerais, celebrações e o silêncio dos dias comuns.

 

Um sino não é apenas bronze.
É a memória sonora de uma comunidade.

 

E para que essa memória continue a ouvir-se, é preciso cuidar do que a maioria das pessoas nunca vê: a madeira que sustenta o sino, as ferragens que o fixam, os mecanismos que lhe dão movimento.

Foi sobre esses elementos que incidiu a intervenção realizada em 2026 pela Fundição de Sinos de Braga – Serafim da Silva Jerónimo & Filhos, Lda. Um trabalho de reabilitação e modernização da automatização que reúne conservação dos materiais, recuperação de equipamentos e novas soluções de comando dos toques.

Duas torres com histórias diferentes

Quem observa a fachada poderá não imaginar que as duas torres sineiras foram concluídas com mais de um século de diferença. Segundo a memória descritiva do projeto de reabilitação do Santuário, o atual templo foi inaugurado na romaria de setembro de 1857, mas a torre do lado direito só ficou concluída em 1967.[1]

A torre velha, à esquerda, era a torre do relógio. Ali funcionou um relógio mecânico e, em 1986, instalámos o nosso relógio CE, com repiques de horas num dos sinos e aplicação de ponteiros no mostrador de mármore existente.

Esse sino, de nota SI1, já tinha servido o relógio mecânico: a sua história acompanha, assim, diferentes formas de marcar o tempo no Santuário.

Quarenta anos depois daquela intervenção, regressámos para cuidar do conjunto sineiro e atualizar os seus sistemas de funcionamento.

 

Fontes: [1] Memória Descritiva do Projeto de Reabilitação e Requalificação do Templo, Envolvente do Templo e Escadório das Virtudes, Santuário de Nossa Senhora da Peneda, excerto de contextualização histórica fornecido para a elaboração deste artigo. Informações sobre os sinos, a intervenção de 1986 e os trabalhos de 2026: registos técnicos fornecidos pela Serafim da Silva Jerónimo & Filhos, Lda.

Seis sinos, diferentes épocas e uma ligação à nossa fundição

Dos seis sinos existentes, quatro foram fundidos pela nossa empresa em 1974. Juntos, representam 1450 kg de um conjunto em que cada sino tem características próprias:

*Aos 4 sinos fornecidos pela Fundição de Sinos de Braga, juntam-se dois sinos de modelo antigo, que já faziam parte da torre sineira do Santuário:

O sino de nota Si1 tem 80 centímetros de diâmetro, pesa 265 kg e apresenta uma imagem de Santa Bárbara, protetora contra tempestades, raios e trovões, e padroeira dos bombeiros.

O sino de nota Dó2 tem 76 centímetros de diâmetro, pesa 220 kg e apresenta uma imagem de Nossa Senhora. Datado de 1767, é o sino mais antigo do Santuário da Senhora da Peneda, onde se encontra há 259 anos.

Há um pormenor curioso: o sino de 1767 e um dos sinos de 1974 partilham a nota, são peças de épocas distintas, com características que importa conhecer e respeitar em qualquer intervenção.

Reabilitar este conjunto exige, por isso, olhar para cada sino e para os elementos que o acompanham, identificando o que pode ser recuperado e o que necessita de substituição.

O que sustenta um sino?

Quando ouvimos um sino, dificilmente pensamos no seu cabeçalho. No entanto, esta estrutura é essencial: sustenta o sino e, quando este bamboa, funciona também como contrapeso, reduzindo o esforço necessário para o fazer oscilar.

As ferragens unem o cabeçalho ao sino, permitindo que o conjunto trabalhe como um só corpo. O badalo participa na produção do som. Cada elemento tem uma função, e o estado de conservação de todos eles importa para o funcionamento e a segurança do conjunto.

É por isso que a conservação de uma torre sineira passa também pelos materiais e pelas ligações que tornam possível o toque. A degradação das madeiras e dos elementos metálicos merece atenção, mesmo quando os sinos continuam a tocar.

No Santuário da Peneda, os trabalhos foram adaptados às necessidades de cada torre.

Na torre velha, reparámos as ferragens e pintámos o cabeçalho do sino 2, com metalização e pintura do respetivo badalo e da roda de bamboar. Para o sino 4 e 5, fornecemos dois cabeçalhos novos em madeira e realizámos a metalização e pintura dos respetivos badalos.

Na torre nova, a intervenção abrangeu a metalização e pintura das ferragens e a pintura dos cabeçalhos dos três sinos. Foram também metalizados e pintados a roda de bamboar do sino 1 e os badalos dos sinos 3 e 6.

Estes trabalhos contribuem para proteger os elementos metálicos e conservar as estruturas de suporte. Recuperar os componentes existentes e substituir os que o exigem, permitindo prolongar a vida do conjunto, preservando as suas características.

Picar e bamboar: duas formas de dar voz aos sinos

Um sino pode tocar sem oscilar. É o que acontece no toque de picar, em que o som resulta do impacto do badalo na parede interior ou de um martelo exterior. Cada impacto corresponde a uma badalada.

No toque de bamboar, o conjunto formado pelo sino e pelo cabeçalho oscila, fazendo o sino encontrar o badalo no movimento alternado. É um toque de grande solenidade, em que o movimento faz parte da expressão sonora.

A intervenção no Santuário da Peneda contemplou ambas as formas de toque: instalámos seis martelos elétricos de picar, com os respetivos suportes de fixação, e quatro motores de bamboar convencionais. Reparámos ainda os dois motores de bamboar existentes, aproveitando equipamentos que podiam continuar ao serviço.

A tradição dos toques, com programação e comando à distância

Para gerir o funcionamento do conjunto, instalámos um relógio computorizado EXACTUS, com programação automática dos toques e mudança automática entre a hora de verão e de inverno, incluindo o respetivo ajuste dos programas. Uma antena recetora GPS permite o acerto do relógio.

O sistema inclui também um telecomando GSM com cartão recarregável e um telecomando de canais para acionar à distância oito toques, ou sete toques e uma função de paragem.

Anteriormente a esta intervenção, apenas o sino 1 e 2 bamboavam e o sino 5 não estava automatizado. Nesta modernização da automatização dos sinos, o sino 5 passou a estar integrado, com um martelo de picar, e todos os sinos passaram a bamboar.

Esta atualização permite programar toques de chamada para as celebrações, horas e Trindades, de acordo com as necessidades do Santuário. A montagem no local foi realizada pelos nossos técnicos, integrando os equipamentos de comando e os mecanismos de toque.

Preservar os sinos é permitir que continuem a fazer parte da vida do Santuário

Um sino datado de 1767, outro que já marcou as horas ao serviço de um relógio mecânico e quatro sinos saídos da nossa fundição em 1974 convivem hoje nas torres do Santuário da Peneda. Cuidar deles implica compreender essa continuidade e dar atenção ao que permite mantê-la.

A intervenção de 2026 reúne esse propósito: conservar cabeçalhos e ferragens, recuperar mecanismos e dotar o Santuário de meios para gerir os seus toques. É assim que o trabalho realizado no interior das torres se torna presente cá fora.

 

Os sinos de uma igreja são, muitas vezes, o elemento mais antigo do edifício. E são também o mais exposto: ao frio, à humidade, ao peso dos anos e ao esforço de cada toque. A deterioração das madeiras e das ferragens raramente é visível a partir do chão. Só quem sobe às torres percebe o que está em risco. Quando os mecanismos falham ou o toque começa a irregularizar-se, a intervenção já deveria ter acontecido antes.

Se a vossa igreja ou santuário tem sinos que já não são intervencionados há vários anos, ou se há sinais de desgaste nos toques ou nos mecanismos, pode ser o momento de fazer uma avaliação.

A Fundição de Sinos de Braga analisa o estado do conjunto sineiro e propõe soluções adaptadas às características e às possibilidades de cada espaço.

Entre em contacto connosco para agendar uma visita técnica.

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